O que realmente conta quando se conta uma história...

Estamos em um tempo paradoxal, por um lado de excessos – de afazeres, estímulos, ofertas, consumo – e por outro de escassez – de palavras, de tolerância, de tempo, de reflexão e aprofundamento. Tempos de imediatismo, de contatos fugazes com escasso encontro, de superficialidade nas relações, de falta de espaço para a experiência narrativa e para o encontro genuíno que enriquece a vida. Como isso impacta na relação dos adultos com as crianças, quando uma das funções dos adultos é a de serem narradores? Narradores de histórias, mas também tradutores de sentido do que acontece na vida delas. 

Vivenciamos hoje, por exemplo, um excesso de estimulação pelos artefatos eletrônicos de alta performance que promovem uma intoxicação digital nas crianças quando ficam expostas por muitas horas. Vemos crianças que preferem a tela do computador ou do tablet ao contato olho no olho com o ser humano, dispositivos eletrônicos que substituem os amigos nos jogos infantis e nas brincadeiras individuais e coletivas, experiências tão importantes para o desenvolvimento subjetivo de uma criança. Avanços tecnológicos que tem suas consequências: maléficas e benéficas. Vamos pensar: é diferente, por exemplo, estar com um outro em carne e osso do que um outro virtual, onde se perde o essencial da troca humana e o prazer do encontro.

No século passado, o filósofo alemão Walter Benjamin já falava da importância das experiências de encontro interhumano e de narrar histórias para a constituição da subjetividade. Já naquele tempo alertava que essas experiências estavam em baixa. A riqueza, para Benjamin, estaria na arte e no prazer de contar, sendo que a ausência desta narratividade acarretaria uma perda para a infância, um empobrecimento das experiências.

Narrativas de valor são aquelas que enriquecem e contribuem para a aquisição da linguagem, o que é muito diferente de falas ecolálicas que podem estar em crianças que ficam horas na frente da TV ou tablets. O tablet engole as crianças, elas entram no mundo virtual e cabe a nós adultos, esse resgate. Contar histórias também fisga o olhar de uma criança, a entonação que usamos, o suspense, a curiosidade, o olhar afetivo, o prazer que ela sente de ver e ser vista, pois o que ela experimenta é a experiência de existir para o outro.

E ainda, mais do que contar uma história, o que conta é como se conta! É o prazer envolvido no encontro, o desfrute compartilhado, o investimento e a experiência afetiva de realmente estar com alguém, que funcionam como fator de enriquecimento emocional. As narrativas podem ser um potente e imprescindível aliado nesse processo de humanização.

As crianças se desenvolvem e aprendem quando brincam com outras crianças, quando brincam sozinhas, quando escutam histórias. A arte, a música, a literatura, a narrativa de histórias, como, por exemplo, os contos de fadas, são recursos simbólicos presentes na cultura e que podem enriquecer as experiências e a formação humana.

Corremos o risco de privilegiar experiências de individualismo e consumismo, reduzindo a criança a um papel de consumidor de mercadorias, tecnologias e medicamentos psicotrópicos, esquecendo a condição da infância, que é a oportunidade de construir e viver vínculos afetivos, de narrativas e de memórias.

Texto escrito por Luciana Oltramari Cezar, Psicanalista, Coordenadora do Núcleo de Educação do PROJETO - Associação Científica de Psicanálise. O PROJETO - Associação Científica de Psicanalise tem como finalidade promover, transmitir e difundir o pensamento psicanalítico formando uma comunidade cientifica produtiva em Passo Fundo e região. Conta com atividades internas de seminários de cunho formativo para profissionais e estudantes e outras abertas à comunidade, sempre visando a inserção social da Psicanalise e integração entre nosso afazer e a concepção de que as intervenções na cultura, na educação e nas áreas médicas afins sejam intervenções concretas.

 

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