Agro Diário

Produtores satisfeitos com o cereal de duplo propósito

Autor: Redação Diário da Manhã
Produtores satisfeitos com o cereal de duplo propósito
Foto: Marcelo Klein

Investimento em pastagens de inverno é alternativa para os sistemas integrados de produção, priorizando a criação pecuária no inverno e liberando a área para os cultivos de verão

Pecuária ou grãos? Muitas vezes o produtor fica em dúvida no momento de direcionar a atividade agropecuária. É neste contexto que o trigo de duplo propósito tem conquistado espaço, permitindo escolher o mercado mais vantajoso sem perder movimentação de renda ao longo do ano.

Diferente da safra de grãos, a produção animal permite geração de renda melhor distribuída ao longo dos meses. Na engorda de bovinos, a qualidade das pastagens pode antecipar o abate em até 60 dias. O investimento em pastagens de inverno é alternativa para os sistemas integrados de produção, priorizando a criação pecuária no inverno e liberando a área para os cultivos de verão.

Esta é a proposta do trigo de duplo propósito (trigo DP), um cereal de inverno com ciclo vegetativo mais longo que permite tanto a utilização para a alimentação dos animais através de pasto, feno ou silagem, quanto para a colheita de grãos. De acordo com o pesquisador Renato Fontaneli, as pesquisas com trigo de duplo propósito na Embrapa Trigo iniciaram em 1990 com o objetivo de oferecer mais forragens aos animais durante o vazio outonal, que comprometia a produção agropecuária na Região Sul até o crescimento das pastagens de inverno: “precisávamos de plantas com ciclo de desenvolvimento que pudesse ofertar pasto mais cedo, sem comprometer a produção de grãos no inverno. Fomos buscar a experiência de países como Argentina e Estados Unidos para a criação dos trigos de duplo propósito”.

Apesar da resistência em utilizar um grão nobre como o trigo na alimentação animal, associada a crença de que a lavoura não pudesse suportar o pisoteio dos animais, o trigo duplo propósito conquistou rapidamente as lavouras no Rio Grande do Sul, contabilizando cerca de 100 mil hectares em menos de uma década de existência.

O produtor Luiz Carlos Chiocheta conheceu o trigo de DP ainda em 2003, adotando o manejo de dois animais por hectare na engorda de bovinos, numa área com 60% de argila em Coronel Bicaco, RS. Na última safra, com o trigo DP BRS Tarumã, foram possíveis dois ciclos de pastejo e colheita de 50 sacos de grãos no inverno, além da melhora do solo para a rotação com milho e soja no verão: “na área de integração, a colheita de soja foi de 82,3 sacos por hectare, enquanto na área só com lavoura o rendimento ficou em 73,85 sacos”. Os animais estavam prontos para o abate com 100 dias de engorda, com ganho de peso médio de 1kg/dia. “A venda dos grãos tira o custo de implantação da lavoura, assim, o pasto sai de graça”, conta o produtor.

Na safra 2017, intempéries como excesso de chuva na implantação das pastagens, seca durante o desenvolvimento e a incidência de geada matou o azevém e a aveia, mas o trigo continuou verde nos quatro piquetes em Coronel Bicaco, RS. “Temos sobra de pasto para o plantel de 98 animais em terminação”, avalia Luiz Carlos Chiocheta. A cultivar escolhida pelo produtor neste ano foi o lançamento BRS Pastoreio, implantado em 49 hectares com expectativa de colheita de sementes.

Conforme o pesquisador Ricardo Lima de Castro, a cultivar de trigo DP BRS Pastoreio foi desenvolvida com o diferencial de apresentar espigas múticas, isto é, sem aristas (filamentos que podem ferir a mucosa dos animais). Assim, além de pasto ou grãos, a cultivar também pode ser utilizada na silagem de planta inteira. Nas características técnicas, BRS Pastoreio possui ciclo tardio (espigamento em 133 dias e maturação em 165 dias), elevada produção de forragem (massa seca de 2.442 kg/ha), massa verde na silagem chega a 28.059 kg/ha e rendimento de grãos de 3.037 kg/ha (após dois cortes).

Para o produtor da Sementes Cometa, Ruben Kudiess, o BRS Pastoreio tem como diferenciais a produção de grãos 50% superior ao BRS Tarumã e a melhor sanidade. “Acredito que o BRS Pastoreio seja mais indicado ao engorde de gado, já que oferece grande produção de forragem mais cedo, ou para a produção de silagem após dois ou até três pastejos. Mas na produção de leite, ou na pecuária que depende da oferta de forragem distribuída ao longo do ano, acredito que o BRS Tarumã ainda é o mais indicado. O produtor consegue semear o trigo BRS Tarumã em fevereiro e pode fazer até 10 pastejos rotativos”, avalia Kudiess, lembrando que “com o trigo DP você pode mudar o plano durante o jogo, direcionando a lavoura para produzir grãos ou manter a renda com produção de carne ou leite”.

A recomendação do pesquisador Renato Fontaneli é investir em diferentes opções de forragem no outono-inverno: “Embora o trigo possa ser usado apenas como pasto, indica-se o trigo de duplo propósito como reforço de forragem às pastagens de aveia e de azevém, oferecendo oportunidade de retirar os animais no início do elongamento das plantas e manejando para colheita de grãos ou para pré-secado, silagem ou feno”, diz Fontaneli destacando que os trigos são preferidos pelos animais em relação às aveias por exemplo.

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