Política

Esquerdopatas versus Coxinhas

Autor: Daniel Rohrig

A divisão ideológica em que se imerge as discussões políticas que antecedem o pleito de 2018 ganhou nome e sobrenome. Um verdadeiro glossário de expressões inunda os debates nas redes sociais, que na maioria das vezes, transpõe o ambiente virtual e se instala nas rodas de conversa. Entenda o que dizem os especialistas sobre este comportamento

Se um cidadão nativo dos debates políticos da década de 1990, por ventura, acordasse em pleno ano de 2018, entraria em contato com um vocabulário completamente atípico a sua época. Até então, as dicotomias existentes eram pautadas por feio ou bonito, gordo ou magro, preto ou branco, Internacional ou Grêmio e por aí vai. Contudo, nos últimos meses, a polarização avançou – e muito – no campo político, erguendo uma espécie de “Muro de Berlim” imaginário ao longo de todos os estados brasileiros. Em ambos os lados, discursos extremos, pautados por ideologias completamente opostas, mas baseadas no mesmo objetivo de erguer uma bandeira a ponto de sacrificar amizades e de se blindar acerca de opiniões opostas e diferentes. O século XXI conta com um combustível ainda mais inflamável para disseminar ideias, conceitos e ideologias, afinal, como afirmam diversos especialistas, a rede social é a nova praça pública.

De fato, as opiniões que ficavam antes restritas a um pequeno grupo de pessoas ou, até mesmo, durante um almoço de família no domingo, migraram para uma plataforma em que todos têm acesso o tempo todo. A constante necessidade de emitir opinião sobre tudo atrelado ao fato de que as discussões não ocorrem frente e frente, e sim, por trás de monitores de computador ou dispositivos móveis, contribuiu para este comportamento. O professor de direito constitucional da IMED, Fausto Moraes, relaciona a evolução do processo comunicacional da esfera privada para a esfera pública nos debates políticos. “Por impulso, as pessoas acabam postando coisas nas redes sociais sem pensar nas consequências daquilo. Ao invés da pessoa manter aquela opinião em sua esfera privada, ela entende que as redes sociais se tornam um instrumento para a manifestação pública. O facebook, por exemplo, pode ser um instrumento bom e ruim simultaneamente. O lado positivo é de ter um espaço em que as pessoas possam se conectar para debater e aprimorar ideias. Só que o lado negativo, que está prevalecendo, de defender ideias extremistas faz com que todo aquele que pensa diferente seja excluído dos debates”, analisa o professor.

Este comportamento expõe não só a realidade das redes, mas também, a realidade do espaço físico cotidiano da sociedade. Em um contexto de debates que mais parece um campo de batalha, quase não resta espaço para neutralidades, ou até mesmo, isenções. Neste caso, o professor universitário considera duas situações que explicam em partes este processo. “Quando se fala em uma ideologia política, eu penso que a nossa cidadania política encontra um problema em dois fatores, que correspondem ao fundamentalismo político e ao narcisismo político. O primeiro diz respeito aos debates político-ideológicos irracionais. A pessoa escolhe um lado e a partir daí passa a não entender mais o lado oposto. O segundo, quanto ao narcisismo, compreende aquelas pessoas que só conseguem discutir com seus pares que pensam da mesma forma, do mesmo nicho político”, pondera Moraes. O perigo disfarçado nas posições políticas poderia levar o debate de projetos entre os presidenciáveis à meras discussões entre “certo” ou “errado”.

A língua portuguesa ganha novas expressões

Quanto ao surgimento de um novo vocabulário em detrimento dos debates políticos, mencionado no início da reportagem, leva ao entendimento de como a língua portuguesa se comporta em determinados contextos sociais. De “esquerdopatas” a “coxinhas” ou de “petralhas” a “bolsominions”, uma verdadeira cascata de expressões pautam as discussões, geralmente de forma pejorativa a um grupo ou a uma ideologia. A professora da Universidade de Passo Fundo e doutora em Letras, Marlete Sandra Diedrich, explica que a língua é uma espécie de organismo vivo e que léxico (conjunto de todas as expressões de uma língua) está em constantes alterações. “Embora a língua seja um sistema organizado, ela está inserida sempre dentro de um contexto, seja ele social, cultural ou político. Todas as alterações que ela sofre estão relacionadas a todos estes aspectos. Hoje, colocamos em pauta estas transformações específicas entrelaçadas com o ambiente sociopolítico. Porém, em todas as épocas essas alterações acontecem”, explica.

Não há um marco temporal que determina as transformações de uma língua, afinal este processo é contínuo. Contudo, Marlete explica que no recorte até as Eleições de 2018, muitas expressões ligadas a este fato surgirão e irão interferir na forma na qual as pessoas se expressam, tanto na língua falada quanto na escrita. “O surgimento de uma nova palavra no léxico de uma língua é conhecido como neologismo. Porém, da mesma forma em que uma nova palavra surge e é aceita por uma língua, este neologismo se torna efêmero. Isso não ocorre apenas agora, mas já ocorreu em outras épocas e ocorre o tempo todo”, avalia.

Outro olhar sobre o surgimento de uma palavra poder estar relacionado a etimologia, ou seja, o contexto histórico que envolve a origem das palavras. “Toda palavra possui uma origem para a sua formação, que geralmente é fixa, conhecido como radical. A forma como sufixos e prefixos vão sendo articulados determinam o sentido e o significado de uma expressão. Como toda a palavra também é um signo, ela se torna ideológica, que dependendo do contexto em que vou utilizá-la, eu posso revesti-la de novos sentidos”, entende a professora.

Ideologia por trás das palavras

Na opinião do professor de direito constitucional, Fausto Moraes, o surgimento das expressões utilizadas nos debates políticos atuais são consequência da falta de cidadania política, que levam a simplificação extrema de debates. “Muitas vezes utilizam-se dessas expressões aqueles que, de fato, não querem discutir os problemas do país. Um exemplo é se analisarmos quem discute a prisão do ex-presidente Lula e taxá-los de esquerdopatas. Um tipo de discurso assim é uma tentativa de denegrir uma possibilidade de debate próprio e aprofundado do tema. Isso torna a análise muito pobre”, entende. O vocabulário nativo das redes sociais também impacta na impressão dos eleitores, tanto de forma positiva ou negativa. “Há a discussão de que as redes sociais são utilizadas para impulsionar ou denegrir candidaturas. Esse, inclusive, é o tema de um estudo que estamos desenvolvendo sobre propaganda eleitoral nas redes sociais, liberdade de expressão e fake news. Essa última, que são as notícias falsas, aparecem no feed de notícias do cidadão que se identifica com a ideologia e ao mesmo toma como verdade, replicando a informação falsa”, explica Moraes. A utilização destas expressões serviria, portanto, muito mais para denegrir e para esconder toda a gama de ideias de um posicionamento político.

Quanto a semântica das palavras, a produção de sentido vai depender da época em que elas são utilizadas, conforme explica a professora Marlete. “A ideologia vai depender muito da época em que ela foi ou será dita. A expressão pode até ter sido cunhada há 30 anos, mas se trazida para determinando contexto, fica trajada de um novo significado. Existem discursos do Brizola, da época da fundação do PDT, que se frases ditas por ele lá atrás são apresentadas no contexto atual, há toda uma mobilização de que ele jamais ele falaria tal discurso. A gente observa que a língua é um camaleão”, observa.

A mensagem, a partir de toda a construção do debate proposto em relação ao surgimento de expressões para simplificar discursos na tentativa de agredir o adversário político é uma só. Moraes atenta ao cuidado minucioso que o eleitor deverá ter ao realizar a escolha nas urnas, em outubro. “O esforço direcionado para essa polarização construída por ataques como ‘bolsominions’ e ‘esquerda mortadela’ deveria ser transferida a um ponto comum a todos os brasileiros. Escolher em 2018, representantes que não estão envolvidos em esquemas de corrupção e que demonstrem projetos concretos e não apenas ideias soltas ao vento. E por último, nomes com experiências em gestão pública. Ao mesmo tempo, devemos imaginar quem serão os demais parlamentaram para darem suporte a esta pessoa para que ela possa governar”, finaliza o professor de direito constitucional.

Glossário das discussões pré-eleições 2018

A reportagem do Grupo Diário da Manhã separou algumas expressões utilizadas nos debates políticos e apresenta as possíveis origens e significados de cada uma dentro do contexto político atual:

Bolsominions – expressão criada a partir da ascensão do presidenciável, Jair Bolsonaro. O prefixo “bolso” faz referência ao político. Já o sufixo “minions” correspondem aos operários do filme “Meu Malvado Favorito”, que são todos idênticos e reproduzem as mesmas ações, agregando uma paixão doentia pelo seu líder, na animação. Neste caso, a expressão caracteriza os eleitores de Bolsonaro e suas ações no campo das discussões políticas. É utilizada pelo grupo de pessoas que faz oposição ao parlamentar.

Coxinhas – um dos mais famosos salgados brasileiros passou a ter outra conotação desde que os debates políticos se acirraram. A tarja ‘coxinha’ é utilizada para manifestar repúdio ao grupo de pessoas com pensamentos ligados à chamada ‘direita’ brasileira. Não há uma origem específica para surgimento desta expressão dentro deste entendimento.

Esquerda Mortadela – Usada para fazer referência às manifestações da chamada ‘esquerda’ brasileira, a expressão surgiu em virtude das reuniões promovidas pelos movimentos sociais e partidos da base aliada da ex-presidente Dilma Rousseff oferecerem lanches, geralmente compostos por pão e mortadela. A oposição deste grupo justificava que a entrega do lanche seria motivada para aumentar o número de participantes nestes eventos.

Esquerdopatas – na etimologia da palavra, o prefixo ‘esquerdo’ faz referência a ideologia em si. Por sua vez, o sufixo ‘patas’ faz referência a palavra patologia, que apresenta conotação de patologia, doença. Portanto, o significado da expressão varia entre ‘esquerda doente’ ou ‘doença de esquerda’ e é utilizada pejorativamente para integrantes de partidos como o PT, PC do B, PSOL, PSTU, PCO, entre outros.

Fascistas – de acordo com o dicionário da língua portuguesa, diz respeito a um movimento ou regime político e filosófico que, semelhante ao imposto por Benito Mussolini, na Itália em 1922, baseia-se no despotismo, na violência, na censura para suprimir a oposição, caracterizado por um governo antidemocrático ou ditatorial.

Isentão – faz alusão a palavra ‘isento’, que demonstra imparcialidade, neutralidade. Utilizada de forma pejorativa para atingir o grupo de pessoas que prefere não se envolver em debates políticos, nem a favor ou contra alguma ideologia.

Muraldino – possui a mesma conotação da expressão ‘isentão’, com a única diferença de que esta palavra faz referência a ‘quem está em cima de um muro’, indecisa, indefinida.

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