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Economia

Os cenários de uma crise

Autor: Alessandro Tavares
Os cenários de uma crise
Foto: DM/Isadora Stentzler

Para as empresas de transporte, o preço do diesel na composição do custo do frete já é maior que a despesa com funcionários. Autônomos apontam preocupação com a segurança na estrada, pois com a rentabilidade menor a manutenção preventiva dos veículos por vezes fica prejudicada e a idade da frota tende a aumentar

Nesta quarta-feira (23), terceiro dia de paralisação dos caminhoneiros, aumentaram em todo o país os pontos de paradas. Em Carazinho, centenas de motoristas estão com os caminhões e carretas parados às margens da BR 285 e ERS 142 ou nos pátios de postos de combustíveis.

No interior, os primeiros a sentir o reflexo direto da paralisação têm sido os produtores de leite, que, mesmo operando com margens baixas de rentabilidade, por ora  estão tendo que literalmente colocar dinheiro fora, já que como começam a ficar com a capacidade de armazenamento esgotada, sem o transporte para indústria o leite acaba estragando.

Em Almirante Tamandaré do Sul, o rebanho bovino do produtor Valmor produz diariamente cerca de mil litros de leite e a capacidade de seu resfriador está esgotada. O produtor diz que recebe pelo litro de leite o valor de R$ 1,23 e lembra que há um ano o preço que recebia pelo litro era de R$ 1,65, sendo que o custo da produção, segundo ele, não reduziu.

Ele também lembra que o preço do diesel na ocasião ficava próximo de R$ 1,60. “Se vendendo leite já estamos endividados, imagina como é que fica colocando o produto fora. Sei que o pessoal do transporte está sendo prejudicado e concordo com a greve, mas produtos perecíveis  deveriam ser liberados. No caso de leite, se não conseguirmos entregar, em pouco tempo não conseguiremos dar o giro nas contas, passaremos da maleza para quebrados”, comenta o produtor.                           

Ainda no primeiro dia da paralisação dos caminhoneiros o governo federal anunciou que eliminaria a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre o diesel, porém, em contrapartida, os parlamentares deveriam aprovar o projeto de reoneração da folha de pagamento.

Por outro lado, os prefeitos, que estão reunidos em Brasília nesta semana, querem uma compensação pela perda de arrecadação com fim da Cide. As alternativas que tratadas pelo governo federal dão o tom de quem planeja com o cobertor curto, enquanto o fim da Cide teria impacto que pode reduzir o preço do diesel em poucos centavos, o segmento de transportes afirma que deveria ser reduzido em proporção quase que de R$ 1,00.

O setor de transportes é puxado pela demanda que é orientada pelo consumo, e quem  consome é quem tem renda, neste viés, a proposta do Governo de reoneração da folha de pagamento de  algumas áreas vem junto da incógnita em saber se os setores  a serem afetados vão manter ou estão em condições de manter os postos de trabalho.

Diesel: ajuste diário no preço cria dificuldades em verificar custos antecipadamente  

O empresário Alexandre Schmitz, presidente da TW Transportes, destaca que o peso do combustível na composição do frete varia de acordo com o tipo de carga a ser transportada, mas comenta que no caso das chamadas cargas a granel, o preço do diesel atualmente tem representado até 40% do custo do frete.

O dirigente revela que desde 2017 quando a Petrobras  anunciou sua nova política de preços com ajustes diários nos valores dos combustíveis, ficou muito difícil para as empresas conseguirem gerenciar com precisão e de forma antecipada seus custos reais, uma vez que durante uma mesma viagem, por exemplo, o preço dos combustíveis pode ter tido varias oscilações, e além disto, ainda há variações de preços e tributações ao produto em cada estado.

O empresário destaca que diante de tal contexto, mesmo que haja maior demanda de cargas no mercado neste ano do que se comparado ao ano passado, dados os aumentos exponenciais dos custos, as margens de rentabilidade do negócio estão cada vez mais estreitas, chegando a haver alguns tipos de fretes que chegam ao ponto de serem repensados se vale a pena fazê-los.

O empresário comenta que para o país, a médio e longo prazo, se tal condição permanecer poderá refletir no envelhecimento da frota dos veículos de transporte de carga, uma vez que com a rentabilidade do negócio menor, o risco para as empresas em tomar crédito para investimentos sem comprometer o fluxo das demais operações aumenta.

Schmitz conta que no caso da empresa, diante da reação que o mercado vinha expondo neste ano com maior volume de fretes, iniciou ainda  em março negociações para renovação de uma parte da frota, porém, ele revela que já nas últimas duas semanas a disparada do preço do dólar, os aumentos no preço do combustíveis  somados ao contexto político do país podem ser fatores que tenham contribuído com uma queda na demanda por cargas.

O empresário comenta que começa a observar com preocupação a aproximação do segundo semestre do ano, onde se tem eleições gerais, de modo que as expectativas de crescimento e recuperação econômica do país previstas para o ano de 2018 possam ficar com o desempenho um tanto quanto  comprometidos caso não hajam algumas adequações. O empresário comenta que em seu ponto de vista, o monopólio da Petrobras em relação aos combustíveis ao invés de ser fator de proteção interna e colaborar com a competitividade da nação tem feito o país perder competitividade.

Schmitz frisa que em seu entendimento o preço adequado do litro de diesel deveria ser algo em torno de 30% a menos do que tem sido praticado. Ele comenta que assim como a transportara está reanalisando os investimentos que começou a negociar em março, outros segmentos também assim o fazem, de modo que a retração nos investimentos também compromete por exemplo um avanço no número de contratações no mercado de trabalho. 

O pior momento em mais de uma década

Caminhoneiro autônomo há 11 anos, Jacir Carvalho afirma que a  categoria tem vivido o pior momento do período. “Sem dúvidas este é pior momento. Queira Deus que possamos passar por esta fase. Já pensei em desistir várias vezes, só não desisti porque caminhão é como uma empresa, em que você é o operador e o administrador, mas infelizmente quem é autônomo hoje está praticamente com a empresa quebrada”, lamenta Carvalho.

O caminhoneiro exemplifica o aumento nos custos de operação e o impacto do preço do diesel, dos lubrificantes e pneus, ao comentar que fez recentemente duas viagens ao estado de Mato Grosso do Sul em um intervalo de 20 dias, sendo o transporte do mesmo tipo de carga, a mesma quilometragem rodada, o mesmo percurso e praças de pedágios, porém a diferença do resultado entre uma viagem e outra foi de R$ 1,3 mil do primeiro para o segundo transporte.

Carvalho comenta que com a política de reajuste diário do preço dos combustíveis adotada pela Petrobras, controlar o custo da operação ficou mais difícil pois acabam havendo várias alterações no valor do diesel durante uma mesma viagem, principalmente quando consideradas longas distâncias. O motorista estima que hoje entre 46% e 48% do custo do frete,  com variações para mais ou para menos, é representado pelo óleo diesel.

O aumento dos custos e o aumento dos riscos na estrada 

O caminhoneiro autônomo destaca que a inflação para o setor está longe ser a mesma anunciada pelo Governo Federal e lembra que há um ano a média do preço das lonas de freio, um dos itens mais comuns de serem trocados nas revisões do veículo, era entre R$70,00 e R$ 80,00. Hoje, no entanto, embora variando de acordo com o tipo e marca, os componentes estão custando, segundo o motorista, entre R$ 120 e R$ 130,00. Já o quilo de graxa pelo o qual se pagava algo entre  R$ 18,00 e R$ 20,00 há um ano, conforme Carvalho está mais de R$ 30,00 e de  acordo com o profissional o preço do frete não é reajustado na mesma proporção. “Tenho muitos conhecidos que estão parando o caminhão para ir trabalhar em empresas. O pessoal faz as contas e tem percebido que tendo um salário sendo pago regularmente, a garantia de décimo terceiro, férias, Fundo de Garantia, não vale mais apena seguir como autônomo e tem deixado a função”, diz ele.

Carvalho conta que é notória a depreciação do valor dos veículos, e compara que um caminhão que estivesse avaliado ao valor de R$ 100 mil há cerca de um ano, hoje tem valor de mercado de R$ 70 mil. O motorista também alerta que com a rentabilidade menor e os custos crescentes, por vezes a manutenção dos veículos fica  prejudicada. “Quem é da estrada sabe que tem aumentado o número de acidentes de trânsito envolvendo caminhões, e isto em parte das vezes tem a ver com a falta da manutenção adequada. Infelizmente no cenário que se tem, o lucro do negócio não paga todas as despesas, e algumas coisas acabam ficando para trás, como a manutenção preventiva, por exemplo. Se faz é o que é  mais urgente, mas se peca naquela revisão preventiva e mais minuciosa, e isto aumenta os riscos”, diz o autônomo.

Segundo Carvalho, embora tenha piorado drasticamente no último ano, o segmento de transportes vem sentido reflexos há quase três anos e diz que a frota de transportes de cargas no país tende a se sucatear. “Hoje comprar um caminhão novo é só para as grandes empresas que ainda conseguem taxas diferenciadas com os bancos. O autônomo, se for investir em um caminhão melhor, a opção que tem é vender a casa”, lamenta.

Carvalho aponta que em sua percepção 2018 não melhorou a demanda por fretes e diz que se os preços do serviço não forem revistos, o preço do combustível, que hoje é o principal custo na composição do preço do frete, deveria ser de cerca de R$ 2,80 por litro para que o negócio de  transportes voltasse a apresentar rentabilidade que cubra os custos e remunere o transportador.

O peso do diesel no transporte de passageiros

O presidente do Sindicar e um dos diretores da empresa Hélios  em Carazinho, Moisés Santos, comenta que no caso do transporte de passageiros o preço do diesel, embora varie de acordo com o modelo e tamanho do ônibus, gira em torno de 28% do custo do serviço.

Santos  comenta que a elevação do preço no último ano, considerando o período entre abril de 2017 e abril de  2018, fez com o diesel passasse a ocupar o primeiro lugar na composição dos custos, desbancando no caso das empresas de transporte o lugar que era da folha de pagamentos de funcionários. Segundo Santos, hoje o peso da composição do custo do transporte de passageiros é puxado pelo diesel seguido da folha de pagamento, dos demais insumos utilizados no segmento e os impostos.

O presidente do Sindicar lembra, no entanto, que se for verificado que tanto no preço dos combustíveis quanto na folha de pagamento incidem tributos e contribuição, se somados estes aos impostos que implicam ao setor a parte que acaba sendo remetida ao governo passaria a ocupar a segunda posição no ranking da composição de custos. Santos destaca que o setor  de transportes de passageiros tem as tarifas reguladas e fixadas pela  Agência Nacional dos Transportes Terrestres, e assim mesmo que os custos da operação disparem, o impacto disso deve ser absorvido pelas  empresas.

Santos também  pondera que a rentabilidade cada vez mais apertada das empresas faz com que a idade média da frota nacional deva aumentar. O gestor explica que no caso do transporte de passageiros na modalidade interestadual o tempo de uso de veículos deve ser de 10 a 11 anos. Para o transporte intermunicipal os ônibus devem ter de 12 a 13 anos e a de turismo de 20 anos. Para cada uma das segmentações são exigidas perícias das condições dos veículos que devem ser feitas em intervalos de seis meses a um ano.

 

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