Economia

De uma crise a outra

Autor: Alessandro Tavares
De uma crise a outra
Foto: Jornalismo/ DM

Economistas e lideranças do setor público avaliam que a continuidade da paralisação pode ser tão prejudicial para a economia quanto o alto preço do diesel. Famurs estima que arrecadação dos estados e municípios em maio já está comprometida em no mínimo 25%. O presidente da entidade diz que a situação se aproxima do caos

Com nove dias de paralisação dos caminhoneiros fica cada vez mais  difícil  mensurar o tamanho da crise que se enfrenta. As prefeituras podem sentir impactos da  queda  no  repasse de ICMS já no próximo mês.

Em Carazinho, conforme o contador da Prefeitura Sílvio Schneider, embora por ora não se tenha como mensurar qual será o reflexo que os dias de paralisação até então terão na arrecadação do município, é certo que haverão impactos. Schneider explica que os valores que estão sendo recebidos agora são de quotas de ICMS e se referem a negócios já realizados, de modo que o giro que as empresas deixaram de fazer durante a última semana será sentido pela arrecadação do governo do estado e consequentemente pelas prefeituras no mês seguinte.

Com menos arrecadação de ICMS, menos valores cada prefeitura irá receber, e do imposto que é recolhido apenas 25% são rateados entre os 497 municípios. Outro impacto será sentido futuramente e terá reflexos de até dois anos quando o desempenho da atividade econômica de 2018 for considerado como base no cálculo do índice de rateio de ICMS, tal equação considera o valor adicionado bruto, o tamanho das cidades, entre outros fatores. Atualmente o indicador de rateio do ICMS de Carazinho é de 0,87, ou seja do que o Estado arrecada em ICMS, 25% é a parte que cabe de rateio entre todas as cidades e dos valores que estes 25% resultarem 0,87 é a parte que cabe a Carazinho.

Schneider lembra que para o mês de  maio a  previsão de arrecadação da prefeitura  com ICMS já consolidada é de R$ 5,6 milhões  e para  esta terça-feira (29), a previsão de repasse é de mais R$ 986 mil,  destes valores 20% são descontados ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação – Fundeb.

Para o mês de junho, a previsão é que em valores líquidos para o município das parcelas de ICMS que são repassadas semanalmente às terças-feiras, o município receba um total de R$ 4,6 milhões, porém com a paralisação, embora até a tarde desta segunda-feira (28), não havia boletim informativo citando alteração de valores inicialmente indicados, é muito provável que isto venha a ocorrer. 

Embora com  impacto muito  menor do que  representa o ICMS para  a arrecadação municipal, é provável que o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN) também tenha alteração no desempenho.

Famurs estima que ¼ da  arrecadação  em maio já esta comprometida

O presidente da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul ( FAMURS), Salmo de Oliveira, comenta que em seu entendimento, caso a situação de transporte não volte à normalidade nas próximas horas para que os demais segmentos também voltem ao equilíbrio o contexto começa a ficar  caótico. “O impacto infelizmente é negativo. Com a economia praticamente paralisada desde o dia que se deflagrou grave dos caminhoneiros, a situação é cada vez mais grave. No interior do Estado temos agricultores que não conseguem plantar por falta de insumos, produtores de leite jogando o produto fora, aves e suínos começam a morrer de fome. A situação é muito negativa e se permanecer assim os centros maiores começam a ficar desabastecidos.  Prestamos o nosso apoio à greve dos caminhoneiros, porém, agora, com a demanda deles já atendida, precisamos olhar com atenção contexto no sentido de permitir que a  economia volte ao normal pois do contrário o que se desenha é o caos”, diz o presidente.

Oliveira comenta que  embora a Federação até a tarde desta segunda-feira (28) não tenha sido informado do quanto o Estado deixou de arrecadar ao passo que os negócios das atividades econômicas não ocorram , estima que observando o número  de dias de paralisação, para o setor público, no mínimo  ¼  da arrecadação prevista no mês de maio tenha ficado comprometida.  “Não sabemos exatamente o tamanho do prejuízo, mas é preciso  cessá-lo.  As  cidade sofrem com a  queda do ICMS  e  o cidadão que é penalizado. Do mês de maio no mínimo ¼ da arrecadação do mês já esta prejudicada”, diz Oliveira.

O presidente demonstra preocupação com a hiper valorização de alguns produtos como os hortifrútis, por exemplo, pois segundo Oliveira, é  muito provável que alguns  dos itens,  mesmo  com o fim da paralisação e sendo os aumentos  injustificáveis  demorem a voltar aos  preços que vinham sendo  praticados antes do movimento e teme o risco de que isto puxe a inflação. Para o presidente da  Famurs, o crescimento previsto do país para o ano de  2018  esta comprometido. “Vejo que  tínhamos perspectivas de crescimento entre  2,5%  a 3% para este  ano, mas com esta situação a confiança dos investidores tende  a ficar abalada, considerando que no segundo semestre temos eleições, acredito que podemos  ter  perdido esta perspectiva e  isto é muito grave”,   comenta o prefeito.

O peso de  uma  paralisação  após dois anos de crise na saúde financeira das empresas

O presidente da Associação Comercial e Industrial de  Carazinho – ACIC, Jocélio Cunha,  comenta que tanto a entidade quanto a Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Rio Grande  do Sul, com  algumas ressalvas, ainda na  semana passada declararam apoio à greve dos caminhoneiros por entender que a situação em relação aos preços dos combustíveis era grave e a pauta justa, sendo que os preços do  diesel estavam  deixando  impraticáveis as operações do setor, e que  em um momento  inicial , mesmo que para a população houvesse   alguns   reflexos estes seriam absorvidos dado  ao contexto de elevação desenfreada dos preços dos combustíveis.

Porém, na opinião de Cunha, havendo o governo federal sinalizado para o atendimento da reivindicação da maioria das demandas da categoria, e mesmo  assim a paralisação  permanecendo, ao   passo  que a população é afetada com falta de mantimentos,  ou alteração  bruscas de preços, esse  tipo de manifestação  tende perder o apoio  popular.

Conforme Cunha,  o contexto deve ser observado de uma forma  mais complexa do que  apenas no  preço do diesel.  “O  que se  escuta agora  é que para  haver  a redução dos  R$ 0,46 no litro de  diesel a gasolina  teria de ser aumentada em R$ 0,19. Assim a conta de um segmento será paga por toda a população enquanto nós  temos um governo inchado. O que deveria  acontecer  é o governo achar maneiras para reduzir seus custos de modo que estes produtos  essenciais possam ter preços acessíveis  a toda população”, comenta Cunha.

O presidente da entidade comenta que de modo  geral nos oito primeiros  dias de  paralisação  praticamente todos os  segmentos  da  economia  tiveram  queda  brusca  na  arrecadação e  lembra que  parte das  empresas  ainda estão se reestruturando do período  de crise. Assim  uma semana de   giro financeiro  muito menor  do que a previsão, para  muitas  empresas,  pode ser  fator de  risco. “Viemos de uma forte crise em 2016 e 2017 e as empresas estão ainda se reestruturando e muitas estão em uma situação bastante complicada,  esta semana de paralisação afetou direta ou indiretamente  todas as empresas  que tiveram  um giro  financeiro menor,  tivemos por exemplo lojas de redes em praças de alimentação de shoppings que tiveram de fechar pois não tinham  insumos, mas tenho esperança que a semana que  passou  não tenha sido um fator decisivo  para que uma empresa feche as portas, mas  acredito que agora com as revindicações atendidas, que o movimento perceba o momento  delicado e decida com  bom senso pelo fim da  paralisação”  diz Cunha.

Crise no leite pode se aprofundar 

O economista chefe da Farsul, Antônio da Luz, comenta que embora ainda não tenha como se avaliar qual o tamanho dos prejuízos que a paralisação já causou e ainda causará, é fato que haverá reflexos que estão acontecendo que ainda serão percebidos, mesmo que o movimento seja encerrado. Luz  frisa que embora há de ser  reconhecida como fundamental o pleito dos caminhoneiros, é preciso ser encontrado um  caminho de consenso para equacionar a demanda das parte   e assim tentar retomar  a normalidade das rotinas, pois mesmo que a paralisação seja cessada, alguns segmentos  ainda levarão  algum  tempo para voltar à normalidade, pois segundo o economista, tão prejudicial para a economia do país quanto o alto preço praticado nos combustíveis, é também o desabastecimento das cidades e o ritmo lento  dos negócios. O economista comenta que setores como o de grãos, soja e milho principalmente, são menos impactados diretamente pelas paralisações uma vez que se bem acondicionados, não são perecíveis.

Ele lembra que nos últimos dois anos devido à crise  econômica que afetou o país, a pecuária leiteira foi um segmentos bastante impactados e neste período, um em cada quatro produtores de leite deixaram a atividade, e dos que  permaneceram muitos estão  com dificuldades, Luz pondera que sem o transporte e com as condições de armazenagem do produto esgotada, a maioria dos produtores de leite tem colocado a produção fora, e neste contexto o economista acredita que muitos que ainda persistiam, agora não consigam fazer o giro financeiro do negócio e provavelmente deixarão a atividade.

Luz comenta que outro setor a ser impactado fortemente se paralisação persistir é o de carnes (frango e suíno). O economista destaca que recentemente o embargo na União Europeia impactou o setor e as algumas empresas haviam orientado aos produtores a diminuírem a escala de produção de modo a se adequar a demanda. Com o transporte de ração animal comprometido, além das questões que tangem a temática de bem-estar animal e a possibilidade de mortandade de animais, a morte das matrizes reprodutoras é algo que pode afetar por meses o destino do segmento e por consequência no preço final pago pelo consumidor. 

Ainda é cedo para afirmar que o crescimento do país está comprometido

O economista da Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul  (FEE), Alfredo Meneghetti, comenta que qualquer segmento que passar por uma crise tem efeitos multiplicadores e estima que dos 100 segmentos econômicos  que atuam no Estado, pelo menos a metade não conseguirá recuperar as atividades que deixaram de ser faturadas durante a semana de paralisação.

Assim, Meneghetti estima que cerca de 50% dos segmentos consigam recuperar o ritmo de atividade logo após o fim da paralisação, mas a outra metade ainda pode levar algum tempo até se reorganizar.

O economista exemplifica que uma padaria, por exemplo, não venderá na próxima semana para o mesmo cliente o montante a mais de pães que tenha deixado de vender nesta semana. Porém, para ele, o reflexo dos oito dias de paralisação na economia do país dependerá do encaminhamento que o governo federal terá nos próximos dias e o modo que conduzirá a crise.

O economista comenta que de momento a maior influência da crise foi na disputa eleitoral, porém, para a economia real, segundo Meneghetti, dizer que o crescimento do país de 2% para este ano já está comprometido ainda é cedo pois   analisa que os efeitos ainda podem ser diluídos a depender dos encaminhamentos do governo, porém, para a arrecadação pública os prejuízos são certos,  o que  para o cidadão  deve refletir na oferta de serviços.

Sobre a alta dos preços de alguns produtos, o economista cita que para parte dos que tiveram ágio  no período de  paralisação, mesmo  com o fim do movimento, será a  competitividade do  mercado e a lei de oferta e demanda que se seguir no pós  paralisação que irá  regular os preços.   

 

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