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Uma vida em melodias

Autor: Daniel Rohrig
Uma vida em melodias
Foto: Arquivo Pessoal

Professora nata e apaixonada por música, Clélia Fontoura Martins Pinto cativou uma legião de alunos por meio da educação e das aulas de piano que ministrava. O legado, agora, é lembrado com carinho pelos aprendizes que viam na educadora, um exemplo de vida a ser seguido

Os movimentos rápidos e sincronizados dos dedos em harmonia parecem desenhar minuciosamente o som doce e delicado, executado no piano por Clélia Fontoura Martins Pinto. As mãos dançam uma espécie de coreografia distinta, regrada por notas e acordes. Pela habilidade aprimorada ao longo de seus 81 anos de vida, os olhos verdes de Clélia nem ao menos precisaram consultar a partitura para concluir a melodia. A cena descrita é de um vídeo gravado durante um dos muitos momentos que a matriarca passava com a família, em sua casa. Professora nata, Clélia dedicou 37 anos de sua vida à missão de ser educadora. Além de ter trabalhado na Escola Estadual Nicolau Araújo Vergueiro (EENAV), também foi professora na Universidade de Passo Fundo (UPF) de 01/03/1961 a 01/08/1986, sendo vinculada ao Instituto de Belas Artes, lecionando as disciplinas de música, em geral. Antes e depois de se aposentar do magistério e da academia, sempre dedicou longos períodos às aulas particulares de piano, estabelecendo laços afetivos que perduram até os dias de hoje, com os alunos.

“Ela nasceu com o dom de ensinar música”

Um suspiro e uma pausa no outro lado do telefone antes de responder a primeira pergunta sobre Clélia. Fernanda Ramires, 31 anos, relembra com carinho das férias de verão de 1999, época em que conheceu a professora de piano. Quando retornou de Balneário Camboriú (SC) para Passo Fundo, deu início aos encontros. Ocorriam duas vezes por semana, já que ambas eram vizinhas de prédio, o que facilitava o deslocamento. “Comecei a ter aulas no apartamento dela, em um piano preto e reluzente, muito bonito, que ficava posicionado na sala. Logo no início, ela me indicou alguns livros, e pouco tempo depois, me emprestou até um dos pianos que ela tinha para eu praticar em casa. Por vezes, quando eu tinha dificuldade de executar alguma partitura, ela sentava com toda a paciência do mundo e tocava a música para eu aprender a melodia”, relata.

Além dos sons típicos de uma orquestra sinfônica – neste caso, comandada por apenas uma musicista – as aulas recebiam um toque especial de risadas, já que segundo Fernanda, a professora possuía um astral fora do comum. “Era uma exímia pianista. Enquanto eu tocava as partituras ela ficava ao meu lado bordando. Grande parte da aula nós passávamos conversado e eu ouvia com atenção as histórias dela quando jovem. Uma gargalhada atrás da outra”. Os dois anos que frequentou as aulas de Clélia serviram para criar laços além de uma relação aluna-professora. A amizade conquistou toda a família Ramires e perdurou até os últimos dias de vida da mestre.

“O que a música representava para ela?”, perguntei. Mais uma pausa, esta um pouco maior, antes de emendar a próxima resposta. “A música era a inspiração da vida dela”, completou Fernanda. “Algo que ela fazia muito bem, com grande prazer e alegria, o que distinguia ela das outras pessoas. Ela não tinha problema nenhum em ensinar, dava para ver nos olhos que ela gostava de estar ali, ensinando piano”, relata. A paciência de Clélia durante o processo de aprendizagem era, sem dúvida, um dos diferenciais mais marcantes. A missão de ser professora era encarada com tanta naturalidade, que Fernanda, mesmo criança, se surpreendia com todo o processo. “Era uma professora muito interessante, divertida e que tornava tudo aquilo um momento gostoso”.

Como maior legado, Fernanda aponta o jeito leve com que Clélia levou a vida, sempre com bom humor. “Praticamente toda a minha vida eu fui vizinha dela. Então, desde sempre, eu frequentei a cada dela. Além do piano, como ela adorava bordar, ganhei várias peças. Inclusive, agora estou usando um blusão bordado por ela. São lembranças que ficarão para sempre na memória, com muito carinho”, afirma.

“A prô Clélia fez parte de toda a minha formação”

Mesmo morando e trabalhando atualmente do outro lado do globo, Joana Manuela Wolf, 37 anos, não conteve a emoção ao falar de Clélia. Direto da China, a ex-aluna conversou com o Diário da Manhã sobre suas lembranças na época das aulas de piano em Passo Fundo. “A primeira lembrança que eu tenho da Clélia é que toda a vez que ela me via, mesmo depois de trinta anos, ela me abraçava e me olhava com um sorriso no rosto e me chamava de ‘minha guriazinha’. Acho que para ela a gente nunca cresceu, né? E eu concordo que todo aquele carinho era recíproco”, relembra.

Uma das muitas lembranças que Joana guarda com carinho diz respeito as apresentações realizadas no fim de cada ano. “Não tem como não compartilhar a alegria dela e ansiedade com cada apresentação de piano. Ela cuidava de cada detalhe para que tudo ocorresse perfeitamente. E realmente saía. Era uma apresentação maravilhosa, onde todo mundo ia. Pais e amigos lotavam o auditório do Fórum e o mais lindo era ver a dedicação dela em tratar de tudo. Era ela que pensava e articulava o evento”, conta.

Uma vida baseada na música e no prazer em compartilhar conhecimentos. Joana ressalta que o legado deixado pela mestre em sua vida representa uma coletânea de ensinamentos e exemplos. “Convivi com ela desde meus quatro até os 16 anos. Ela me ajudou muito, principalmente na fase da adolescência, essa época em que a gente está crescendo e descobrindo coisas. Os conselhos dela, as conversas, os puxões de orelha, era como se fosse minha avó do coração. Em uma das minhas últimas decisões, de vir morar na China, quando contei para ela disse – Menina, você não para, né? Mas vai, vai em busca dos teus sonhos que a gente vai estar aqui te esperando”. Depois do relato, a emoção tomou conta de Joana, que não conteve as lágrimas ao lembrar com carinho de Clélia.

“Ela sempre dava conselhos de mãe e me acolhia com um grande abraço”

Outra aluna de Clélia que viajou o mundo foi a publicitária Marina Marini de Magalhães, 38 anos. De Lisboa, em Portugal, a ex-aluna relata uma de suas primeiras lembranças em relação à mestre. “A primeira lembrança é eu chegando pequenina para primeira aula, eu deveria ter uns 8 anos - estamos falando de 1988 - e a prô Clélia nos deixava tão a vontade que aprendíamos brincando”. Marina acredita que para Clélia, a música era vida e emoção, transmitidas pela professora por meio do carinho no qual ela ministrava as aulas. “Ela não precisava estar ali dando incontáveis aulas, mas fazia com muito prazer. A naturalidade dela, sempre com o tricô na mão, deve ter tricotado quilômetros enquanto ensinava.”

Provocada a compartilhar a principal lembrança em relação a professora, Marina não exita em voltar a infância ao buscar nas suas memórias uma das muitas apresentações na qual participou. “Um momento inesquecível foi quando tocamos a quatro mãos numa audição. Todo ano tínhamos audições de piano no Fórum e enchíamos o auditório. Tocamos um música que até hoje me emociona, chama Cavalgada do Diabo, é forte, determinada e linda, assim como nossa querida Prô Clélia”.

No fim da entrevista, a singela homenagem de Marina a Clélia destaca os quase dez anos de convivência. “Ela fez parte da minha formação como pessoa, dos 9 aos 16 anos convivíamos semanalmente e ela me ensinou a não desistir na primeira, confiar em mim e sorrir para vida. Depois que começaram os estudos de cursinho e a faculdade, tive que largar as aulas, mas sempre passava para dar um abraço bem apertado nela”, finaliza emocionada.

O legado de uma vida

Ao longo da coleta de entrevistas e depoimentos sobre a trajetória de vida de Clélia Fontoura Martins Pinto, um detalhe, talvez o mais importante de todos, chamou a atenção. Cada pessoa, ao falar da professora de piano, destacou a leveza e a simplicidade em enxergar os pequenos prazeres da vida. A paixão pela música representa a alma artística e criativa da eterna mestre, que ao ter contato com o piano, se revelava uma musicista sem igual. Ao mesmo tempo que a agitação das mãos formavam melodias de encantar qualquer um, a delicadeza dos movimentos teciam peças e mais peças de bordados e tricôs. Ao mesmo tempo que ensinava, Clélia articulava o emaranhado de fios, que no fim das contas, se transformavam em belos tecidos. Aqui, a paciência em ensinar colaborava nos detalhes desenhados no pano. Lembranças que agora ficarão eternizadas na memória daqueles que aprenderam, mas que também ensinaram, nessa constante troca de conhecimentos.

  • Joana ao lado de Clélia, em um dos muitos momentos em que as duas passaram juntas, conectadas pela m
  • Marina Magalhães foi aluna de Clélia por quase uma década. Hoje, mora e trabalha em Lisboa, Portugal
  • Foto: Arquivo Pessoal

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