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Cultura

“Treinar capoeira é luxo”

Autor: Isadora Stentzler
“Treinar capoeira é luxo”
Professor Jamaica (Foto: Arquivo pessoal)

Professor de capoeira lembra última geração de lutadores na cidade e sustenta esporte como único legitimamente brasileiro

Valdir Leonardo Rodrigues, ou professor Jamaica, interrompeu a aula de capoeira que dava no Centro Social Floresta, de Ibirubá, para atender a reportagem. Ali onde atende cerca de 100 crianças e adolescentes dos 6 aos 16 anos ele tem o braço de um projeto que começou em Carazinho, no início de 2002, e que hoje circula em outras cinco cidades da região.

Suas vivências na dança-luta-brincadeira-jogo da capoeira, como assim diz ser nomeada a prática, começou ainda na década de 1980, quando tinha 13 anos e, escondido do pai policial militar, substituía as aulas de defesa pessoal por capoeira. Após dois anos e com a descoberta do pai, Jamaica se afastou das aulas, passando a treinar sozinho mais tarde e voltando na década de 1990: daí para abandonar o serviço em um banco, ser expulso de casa e se dedicar na arte que se apaixonara.

- Então saí de casa - diz. “Corri o Brasil pra cima e pra baixo e na necessidade de estudar e ter um diploma para me aperfeiçoar nisso parei em Carazinho para estudar Educação Física na Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). E posso dizer que foi aí quando tudo começou de verdade”, conta.

Em 2001, quando se instalou na cidade, Jamaica se recorda que já haviam grupos treinando no município. O que lhe chamou a atenção era o fato de que rodas organizadas aconteciam em uma cidade menor enquanto em outros locais por onde já havia passado era irrisória a presença dessa arte. Algo que, acredita, tenha se desenvolvido no município desde a década de 1970 e criado raízes.

DA MARGINALIDADE AO “LUXO”

Por iniciativa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e do Ministério da Cultura, a capoeira foi reconhecida, em de julho de 2008, como patrimônio cultural imaterial brasileiro.

Pesam nisso as representações da cultura afro-brasileira, as práticas, a forma de ver e pensar o mundo, as cerimônias (festejos e rituais religiosos), as danças, as músicas, as lendas e contos, a história, as brincadeiras e modos de fazer (comidas, artesanato), junto com os instrumentos, objetos e lugares que lhes são associados – cuja tradição é transmitida de geração a geração pelas comunidades tradicionais brasileiras.

Nos últimos 16 anos em que organizou a atividade aqui, Jamaica vê uma ascensão da cultura e uma quebra de estereótipos louvável em relação ao trato que a capoeira recebia na sua criação. Algo a ver com o racismo criado no Brasil a partir da chegada dos escravos africanos, que trouxeram consigo a arte para o país.

“A capoeira surge no inicio da escravidão. Esse nome capoeira foi dado pelo português porque ele não sabia identificar o que era e associou ao espaço físico da prática. Mas é uma palavra que vem do tupi guarani. E hoje em dia, não vou dizer que é difícil ou fácil lutar capoeira, porque difícil mesmo era na época dos ancestrais. Mas hoje temos o comodismo, internet e outros recursos. Por isso acho que treinar capoeira hoje é um luxo. Mas há muitos anos, na época áurea da capoeira, se você fosse pego jogando, era preso. Isso mudou na época de Getúlio Vargas, quando ele viu a capoeira como um esporte que não era aquilo que os outros falavam”, explica.

Com a base histórica da capoeira, Jamaica sentencia ainda que ela é o único esporte “verdadeiramente brasileiro” e reconhecido como tal, passando à frente do futebol, que tem herança inglesa.

Sua fala é apaixonada e vem casada com a filosofia que a arte expressa. Tanto pelos anos de atividade, quanto pelo que ela representa. “O que é importante lembrar é que ela surge como forma de resistência. O objetivo principal dela é lutar contra a opressão. Acreditamos na liberdade. Porque se a gente for parar pra analisar o capoeirista não só joga capoeira. Quando ele entra na roda pra jogar, ele precisa trabalhar a alfabetização do corpo, consciência corporal, o espaço onde acontece, o toque dos instrumentos, o estímulo para tocar um instrumento, o canto. Então ela quebra as correntes”, diz.

Quando começou a desenvolver a atividade no município, em 2002, Jamaica diz que os 450 alunos passaram a ser mais de 730 até o final do projeto, em 2009. Hoje, as aulas continuam nas segundas, terças e sextas-feiras à noite na sede da Fundação Cultural de Carazinho (Fuccar) e tem um público menor. Mas por audácia e amor, Jamaica sonha mais alto e pretende ainda levar a capoeira por todos os rincões carazinhenses.


 

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