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Saúde

O adoecimento do magistério

Autor: Daniele Freitas
O adoecimento do magistério
Foto: Daniele Freitas/DM

Entre as redes estadual e municipal, Passo Fundo registrou, no ano passado, cerca de 700 afastamentos de professores devido a questões de saúde mental

“De repente, eu não conseguia mais ir. Me dava um pânico na hora de sair de casa, uma coisa absurda, eu passava mal. Simplesmente, não conseguia ir para a aula”. O relato, feito por uma professora que preferiu não se identificar, desnuda uma realidade enfrentada diariamente por docentes em todo o País – cenário, este, ainda camuflado pela culpabilização ou, até mesmo, pelo desconhecimento sobre o atual contexto da educação pública. As causas que justificam o medo sentido pela professora não cabem nos dedos de uma só mão: a desvalorização da categoria, o desrespeito em sala de aula, a falta de interesse dos alunos, a sobrecarga de trabalho, a baixa remuneração, os casos de agressão, dificuldades no relacionamento entre professor e aluno, situações de assédio moral, entre outros acontecimentos que permeiam o dia a dia do magistério. Como consequência, o estresse, a depressão e a síndrome de Burnout encontram morada no abalo emocional do professor - conflitos internos que surgem e que livro didático algum ensina como gerenciar.

O adoecimento do corpo docente, quadro cujo agravamento preocupa as autoridades, frequentemente, passa despercebido aos olhares da sociedade, focada unicamente no fomento ao discurso sobre a necessidade de melhorar a educação. No entanto, resta a dúvida: como assegurar a qualidade do ensino sem garantir a saúde aos professores? A relação tão óbvia entre os indicadores é, também, um alerta. Em 2017, segundo dados da 7ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), dos 1,4 mil laudos apresentados durante todo o ano por educadores da rede estadual de Passo Fundo, 40% foram devido a questões de saúde mental. Já na rede municipal, que registrou 1.408 afastamentos de 383 professores no ano passado, 182 deles foram motivados por doenças mentais, resultando em um número de 43 professores que precisaram se afastar de suas atividades. Uma rotina, aliás, bastante familiar para a Vitória, nome fictício que usaremos como referência à professora que aceitou compartilhar sua história. “Depois do primeiro episódio, demorei bastante para conseguir melhorar. Foi preciso terapia, remédio e tudo mais”, lembra.

A primeira ocorrência da Síndrome de Burnout veio durante um período em que Vitória lecionou no turno da noite em uma escola estadual. Os sintomas, ainda desconhecidos, geraram medo e insegurança sobre a profissão que ela havia abraçado cerca de 15 anos atrás. “Eu não sabia o que era, aquilo era muito esquisito, nunca tinha acontecido comigo. Eu não havia sido vítima de nenhum tipo de agressão, nem nada. Claro, eu estava sofrendo porque havia um desinteresse da turma. Naquele momento, o noturno havia sido invadido por alunos que não eram mais os trabalhadores, mas aqueles que ficavam o dia inteiro em casa, entediados, e iam para a escola à noite. Então, aquela não estava sendo uma experiência boa”, recorda.

Ao buscar ajuda especializada, o diagnóstico do psiquiatra veio acompanhado da recomendação de afastamento do trabalho. Após o tratamento, a mudança de escola, a troca de turno e a turma mais interessada aliviaram os sintomas de esgotamento. Contudo, a aparente tranquilidade não durou muito. “Um tempo depois, quando eu estava em uma escola municipal, havia bastante dificuldade de relacionamento entre os alunos. Eu ouvia muitos palavrões, o tempo todo. Então, tive um episódio bastante semelhante ao anterior: o pânico, o desgaste, o desgosto. Comecei a ficar muito irritada na sala de aula, a revidar os xingamentos e aí percebi que eu precisava me afastar novamente. O Burnout é como um alcoolismo, ele sempre fica em ti. Tu tem que aprender a lidar, a evitar situações de estresse, senão tu vai cair no buraco de novo”.

As alterações não são apenas psicológicas, mas também físicas. No caso da Vitória, as dores se espalhavam por todo o corpo, acentuando-se no quadril. “Era uma dor absurda, eu quase não conseguia mais caminhar. Provavelmente, ali foi onde se depositou todo esse sofrimento. Na verdade, esses são os primeiros alertas, porque o psiquismo tu vai enganando, vai dizendo: ‘não, eu dou conta, eu dou conta’. Mas o corpo paralisa. São alterações orgânicas semelhantes às da depressão, que afetam o humor e trazem o choro. O professor que tem esse sofrimento precisa entender que ele tem limitações. Então, tu tem que aprender a lidar com isso, a evitar situações que te coloquem em risco. Uma coisa importante é conseguir dizer ‘não’, algo que o professor tem dificuldade em fazer. Sempre queremos abraçar o mundo”, revela.

Uma queixa recorrente

Vivências como as de Vitória, infelizmente, não são exceções. Quase diariamente, educadores procuram o Centro Municipal de Professores (CMP) de Passo Fundo com queixas semelhantes – desmotivados, esgotados e sem esperança acerca do futuro no magistério. “Os professores estão adoecendo mais nos últimos anos. Isso é um fato constatado, principalmente por quem está no dia a dia das escolas e percebe o quanto nós temos tido ocorrências de professores que se ausentam do trabalho ou que demonstram vários sintomas no seu dia a dia. Fora isso, temos os próprios organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho, que já relatam o adoecimento do magistério, em especial aqui no Brasil. Há dados que mostram que esse adoecimento se dá, principalmente, nas questões psicológicas, mentais. Isso está se alastrando de uma forma preocupante entre a categoria”, salienta o diretor de comunicação do CMP-Sindicato, Eduardo Albuquerque.

Entre os elementos apontados pelo professor, e que contribuem para o pesaroso aumento das estatísticas de adoecimento, estão a falta de estrutura adequada para a atuação do educador a sensível mudança na relação professor/aluno. “Temos, também, as relações próprias de um ambiente de trabalho que, no caso de escolas, nem sempre são tranquilas e, muitas vezes, geram tensões. Temos questões muito presentes, hoje, de assédio moral existente dentro das escolas, o que vem trazendo sérios transtornos para o profissional do magistério. A Síndrome de Burnout, bastante característica da categoria, acomete grande parte dos professores. Alguns se dão conta e procuram os recursos necessários e outros, infelizmente, não percebem que estão tomados dessa síndrome, tendo problemas mais sérios logo adiante. Essa realidade de adoecimento não é só brasileira, mas também local”, pontua.

A resolução do problema passa, na avaliação de Albuquerque, por dois caminhos: a prevenção, a partir da melhoria das condições de trabalho, incluindo valorização, salário e relações interpessoais; e o suporte oferecido pelos gestores, como, por exemplo, a disponibilidade de um psicólogo para oferecer atendimento aos educadores. “A grande maioria das escolas não conta com esse profissional. O professor precisa ter onde se socorrer com relação aos problemas enfrentados no dia a dia. Essa é uma carência muito grande. O psicólogo exerce um papel muito importante porque, segundo a própria OMS, 75% dos casos do adoecimento são de transtornos psicológicos e psíquicos. Ou seja, o grande adoecimento do professor está justamente nessa área”, reforça. Pensando em ampliar a oferta desse atendimento, em breve, o CMP terá, em sua nova sede, um consultório psicológico, disponível para os professores que necessitarem desse auxílio. “Há questões em que podemos atuar, outras não. Para esses quadros clínicos, mais graves, não temos competência nenhuma para fazer qualquer tipo de encaminhamento. Por isso, teremos um psicólogo conveniado conosco que fará o atendimento desses professores, já que eles não têm muito a quem recorrer”.

“Estamos colocando a culpa no professor”

Com mais de trinta anos de magistério, a professora Liane Kirinus é formada em Filosofia e Artes, mas já transitou por diferentes disciplinas ao longo de sua trajetória profissional. Com carga horária de 40 horas semanais, dividias entre o Estado e o Município, ela conhece bem o contexto atual da educação. Para ela, as dificuldades para a prática docente sempre existiram, mas, agora, surgem amparadas por dois agravantes. “Um deles é o papel da família na educação. Percebo que há uma precariedade da estruturação familiar por questões diversas, pela própria demanda de trabalho do homem e da mulher, que acabam não conseguindo dar conta, pelo divórcio desses pais, enfim, por diversas questões que estão ali no ambiente familiar e que vão desaguar na sala de aula, na configuração desse jovem”, aponta.

O outro aspecto agravante diz respeito à forma como o professor é visto pela sociedade. “O discurso continua o mesmo, que a educação é o fundamento de tudo. Mas o professor nunca foi tão desvalorizado como ele está sendo agora e isso é algo novo. Eu olhava para o professor como uma autoridade, como uma pessoa a ser respeitada. Meus pais também olhavam assim. Só que esse cenário mudou. Hoje, o professor é só mais um trabalhador. Podemos xingá-lo, podemos culpá-lo pelas deficiências sociais, pelos problemas e mazelas da sociedade. A gente fala que a educação é o problema, mas a educação é o professor. Em última análise, estamos colocando a culpa nele”, enfatiza. O desconhecimento sobre a desgastante rotina de um professor é igualmente apontado como fator propício para o surgimento das doenças. “O professor trabalha muito, o ano letivo é pesadíssimo, a dedicação é integral. Acho que esse tema do adoecimento precisa ser retomado, tem que ser posto na pauta com mais frequência, porque o discurso de melhorar a educação segue o mesmo de mil anos atrás, só que, se a comunidade não abraçar isso conjuntamente, como família, como políticas públicas, como interesse coletivo, vamos perder justamente o que tanto defendemos: a educação”, finaliza. 

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