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“Minha vida não era mais minha”

Autor: Aline Prestes
“Minha vida não era mais minha”
Foto: Alexandro Wiroski/DM

Vítima de violência descreve o que enfrentou ao lado do companheiro. De amor da sua vida, ele passou a ser a pessoa que ela mais sentia medo. Completando 12 anos, Lei Maria da Penha já embasou 73 mil denúncias neste ano

Essa história poderia ser sobre o homicídio de Priscila. Poderia contar o abuso e a violência que passou no tempo em que esteve ao lado de Carlos.  Poderia ter relatos dos seus pais e amigos afirmando que cansaram de pedir que ela deixasse o relacionamento abusivo que vivia. Mas não, essa história fala sobre dor, insegurança e principalmente coragem. Apesar de toda manipulação, sofrimento e violência, ela conseguiu sair de cabeça erguida e descreve nessa reportagem o que passou até o momento que voltou a se sentir livre.

Foi na última agressão que Priscila conseguiu dar um basta no seu relacionamento abusivo. Passados pelo menos quatro meses das agressões ela criou coragem e registrou um Boletim de Ocorrência relatando o que vinha passando com o atual parceiro.  Apesar do sentimento que nutriu no tempo em que passaram juntos, o medo em passar uma vida dessa forma a fez acordar e procurar ajuda.

As agressões iniciaram quando o celular de Priscila era só de Carlos (os nomes reais foram omitidos para preservar a vítima), a sua vida particular não pertencia mais a ela. “Eu tinha que dar explicação de todas as pessoas que eu cumprimentava e conhecia, de onde conhecia, quando conheci, se eu tinha ficado com essa pessoa ou se havia me relacionado. Meu celular não podia ter senha, devia ter livre acesso a ele. Minha vida não era mais minha” relata.

Apesar de todas essas exigências, quando o caso invertia, ela não podia mexer no celular dele e muitas vezes ele chegou a escondê-lo dela. “Se eu pegasse seu celular, começavam as agressões. Ele me segurava muito forte, me colocava contra a parede. Aconteceram casos de me dar soco nas costas, me derrubar no chão. Quando eu começava a chorar ou tentar terminar o relacionamento, ele ficava mais agressivo. Me trancava dentro do seu quarto e não deixava sair. Muitas vezes em que fui agredida ele estava totalmente sóbrio, não havia desculpas”, descreve Priscila.

Manipulação

Antes de conseguir se libertar precisou compreender que o que passava era pior do que as ameaças e a manipulação que Carlos cometia diariamente com ela.  “Percebi que estava em um relacionamento abusivo e tentei sair por diversas vezes, mas por causa dessas ameaças acabava ficando com ele. Eu gostava muito dele, mas chegou um ponto que até o bom sentimento se desfez. Eu quis terminar antes, mas ainda não tinha coragem”, diz.

Conforme relembra, o relacionamento nem sempre foi esse caos. Nos primeiros quatro a cinco meses, Carlos era um ótimo namorado, levava café da manhã na cama, mandava mensagens românticas. “Ele era perfeito, ele limpava o chão pra eu passar, me levava trabalhar. Foi o amor da minha vida, ou parecia ser”. Até que as ameaças começaram a tomar forma, com palavras, ações e reações, foi aí que ela conheceu o outro lado do parceiro. “Se eu gritasse ele dizia ‘Você vai ver o que vai te acontecer’, ‘Eu te mato’, ‘Vou fazer mal para tua família’, ‘Eu vou infernizar tua vida’, ‘Se meus pais se meterem você vai se arrepender’. Eu vivia a base de ameaçar diárias. Algumas vezes eu tentei revidar, mas ele era muito mais forte, eu não conseguia me defender”, descreve.

A jovem revidou um tapa que levou, outras vezes deu socos no peito dele, tentando o fazer parar, mas quanto mais ela chorava, mais Carlos gritava e se tornava agressivo. “Parecia um surto de raiva, quando passava, ele chorava, dizia que amava, que nós íamos casar, viajar juntos, ter a nossa casa e ser felizes. Sempre prometendo que não ia mais acontecer”.

Conhecer o ponto fraco da pessoa que sofre a agressão faz toda diferença, relata Priscila. “Ele sabia dos meus problemas com minha aparência, isso facilitava a dependência que eu vivia em torno do nosso relacionamento”, pontua.

Afastamento da família e de amigos

A família de Priscila percebia cada vez mais as agressões de Carlos contra ela, os maus-tratos, a forma como ele reagia quando não estava de acordo com suas decisões. “Meus pais não eram a favor, proibiram de Carlos entrar em nossa casa, foi então que parei de falar com minha família e fiquei do lado dele”, desabafa.

Com a experiência que passou, Priscila salienta a importância da família se manter próxima, mesmo parecendo melhor não se meter, é ideal que sigam por perto tentando ajudar. “As famílias não sabem disso, mas é imprescindível que eles não desistam. Eu fiquei com ele muito por causa dos meus pais, pelas ameaças eu acreditava estar os protegendo e acabava aguentando. Me tornei uma pessoa muito infeliz”, conta.

Para os amigos, Priscila falava que Carlos tinha um problema, como existiam muitos julgamentos, em sua percepção ela não conseguia revelar. “Ninguém sabe o que passa em nossa cabeça, ou o que a gente escuta. Cheguei a dizer por diversas vezes: ‘Eu gosto dele, ele tá doente, precisa se tratar’, justificava suas atitudes, mas não enxergava o que realmente estava passando. Tivemos momentos bons, mas os ruins se sobreporão e aguentei tudo que eu pude”.

Descaso da família do agressor

Muitas das agressões que Carlos cometeu contra a jovem foram dentro da casa dos seus pais, ou em viagens com a família dele, mas eles simplesmente ignoravam os gritos e pedidos de socorro.  Não foi só o silêncio que Carlos cometia contra Priscila que fomentaram a violência, mas também o modo como eles fingiam que nada estava acontecendo. “Uma viagem que fui com a família dele, eu poderia ter morrido, meu rosto estava machucado e ninguém deles me pediu o que aconteceu. Eu consegui arranhar Carlos para me defender, mas isso não bastou para ele parar. E apesar disso o único comentário da família sobre o fato foi sobre os gritos afirmando ‘Vocês não tem vergonha na cara de brigar na frente dos outros’”, lembra Priscila, sobre o que disse a família do ex. “Existia muita negligência dos pais dele, por mais que eles escutassem nunca fizeram nada. Uma vez, um pouco antes do nosso término, eles tentaram intervir, mas sempre eu era a culpada, a responsável por toda a agressividade dele. A minha atitude era a desculpa para Carlos me tratar daquele jeito”, fala, emocionada.

Última agressão

Na última agressão física que Carlos cometeu contra Priscila, ele passava por um surto de raiva e chegou a apertar sua garganta. “Ele me estrangulou, ficou segurando com as duas mãos em minha garganta. Foi horrível! Eu não conseguia gritar, pedir ajuda. Apenas fiquei sentido que minha vida estava se indo aos poucos. Quando ele finalmente parou, eu disse que seria a última vez, que não aguentava mais. Sim, eu já havia dito isso outras vezes que se ele voltasse ser agressivo daquela maneira eu ia embora. Mas aquele dia eu finalmente criei coragem. Percebi que a frase ‘quem faz uma vez, faz sempre’ tinha todo sentido”, conta ela, ao mesmo tempo em que chora.

“Depois desse momento eu criei coragem. Eu saí dessa situação, liguei para alguns amigos e eles foram à delegacia comigo. Ele continuou me procurando através de mensagens, amigos ou meu ambiente de trabalho. Larguei meu emprego porque ele ficava indo até lá, em horários que não estava. Mas em uma das vezes que Carlos esteve lá, eu estava sozinha com um cliente, precisei expor a situação e pedir que o mesmo ficasse até que ele fosse embora”, descreve Priscila.

Ao lembrar do caso de repercussão nacional que envolveu a advogada paranaense, Tatiane Spitzner, encontrada morta após diversas agressões do marido e sofrer uma queda do quarto andar do prédio onde morava (circunstância investigada pela polícia), Priscila se emociona. “Quando vi as imagens da agressão de Tatiane pensei que poderia ter acontecido comigo, ‘poderia ser eu’. Não acho que ela se suicidou, ela fugiu, ela queria viver e penso quantas vezes isso aconteceu com ela. Infelizmente as pessoas veem a agressão e não fazem nada. O mesmo aconteceu comigo, eu gritava pedindo ajuda e socorro e ninguém me ajudava.  Em briga de marido e mulher se mete a colher. Uma mulher não tem força para se defender contra um homem”, pontua.

Vida que segue

Apesar de se sentir um pouco insegura quando conversa com outros homens, que apresentem alguma característica de Carlos, Priscila se sente feliz e grata por ter conseguido sair viva dessa história. “Agora eu estou mais forte para enfrentar o que for necessário e me afastar de uma pessoa que só me consumia de dor. Hoje me considero feliz depois de tudo que passei. Meu relacionamento com meus pais melhorou muito, eles não gostam de falar do que aconteceu, é uma página que rasgamos de nossas vidas. Se eu pudesse dar uma dica, pra quem tá passando por isso, converse com alguém e vá à delegacia. A agressão não vai parar. Eles podem prometer mundos e fundos, mas isso não muda. Se você é amiga, mãe ou pai e está vendo essa situação pegue a pessoa e leve na delegacia. Insista que faça Boletim de Ocorrência. Ajude a pessoa dar um basta!”, finaliza.

Priscila recorda quatro dicas que uma amiga a enviou, no tempo em que passava ao lado de Carlos, e indica como são extremamente importantes para quem está próximo de uma pessoa que passe por violência.

1)  Converse: Pergunte como está e se mostre preocupado (a) e acima de tudo observe;
2) Dê atenção: o foco não é o abusador, e sim a vítima! Não entre em contato com o abusador querendo buscar satisfações ou dar conselhos;
3) Ajude a melhorar sua autoestima: lembre de como ela é incrível e como era antes de entrar nessa relação;
4) Apoie: Procure mostrar através de muita conversa e compreensão para a sua amiga que aquela relação não é saudável.

Doze anos da Lei Maria da Penha

Para proteger as mulheres da violência doméstica e familiar, em sete de agosto de 2006 foi sancionada a Lei Maria da Penha, número 11.340.  Também estão previstas as situações de violência psicológica como afastamento dos amigos e familiares, ofensas, destruição de objetos e documentos, difamação e calúnia. O agressor não precisa ser necessariamente o marido ou companheiro: pode ser um parente ou uma pessoa do seu convívio.

Segundo o Ministério dos Direitos Humanos (MDH), que administra a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, o Ligue 180, foram registradas no primeiro semestre deste ano quase 73 mil denúncias. O resultado é bem maior do que o registrado (12 mil) em 2006, primeiro ano de funcionamento da Central. As principais agressões denunciadas são cárcere privado, violência física, psicológica, obstétrica, sexual, moral, patrimonial, tráfico de pessoas, homicídio e assédio no esporte. As denúncias também podem ser registradas pessoalmente nas delegacias especializadas em crime contra a mulher.

A partir da sanção da Lei Maria da Penha, o Código Penal passou a prever estes tipos de agressão como crimes, que geralmente antecedem agressões fatais. O código também estabelece que os agressores sejam presos em flagrante ou tenham prisão preventiva decretada se ameaçarem a integridade física da mulher. Segundo o Mapa da Violência, quase 5 mil mulheres foram assassinadas no país, em 2016. O resultado representa uma taxa de 4,5 homicídios para cada 100 mil brasileiras. Em dez anos, houve um aumento de 6,4% nos casos de assassinatos de mulheres.

Qualquer dúvida ou emergência ligue 180.

  • Foto: Alexandro Wiroski/DM

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